Edson Braga propõe nova forma de calcular o valor dos alimentos na indústria
Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos avalia que custo por quilo não é suficiente para medir rendimento, sabor, conveniência e desperdício
A indústria de alimentos desenvolveu grande precisão para calcular matérias-primas, embalagens, energia, logística e produção. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, o próximo desafio está em medir com a mesma atenção o valor efetivamente entregue ao consumidor.
Na sua avaliação, analisar apenas o preço por quilo pode gerar decisões incompletas. Dois produtos com custos semelhantes podem apresentar diferenças relevantes em rendimento, desperdício, porção, experiência sensorial e praticidade.
Preço por quilo não conta toda a história
O quilo é uma referência importante para compras e produção, mas o consumidor não se relaciona com alimentos dessa forma. Ele compra porções, prepara refeições e avalia aquilo que efetivamente consegue aproveitar.
Um ingrediente mais barato pode gerar mais perdas, consumir mais energia ou exigir maior quantidade para alcançar determinado resultado. Outro, inicialmente mais caro, pode apresentar rendimento superior e reduzir custos em outras etapas.
Por isso, o menor preço de compra nem sempre representa a opção economicamente mais eficiente.
Valor também precisa ser medido por refeição
Uma análise mais ampla pode considerar porção, desperdício, tempo de preparo, conveniência, rendimento e experiência de consumo.
Essa lógica altera decisões de desenvolvimento.
Em vez de perguntar apenas quanto custa produzir determinado volume, a indústria passa a observar quanto custa entregar uma refeição satisfatória e quanto daquele produto realmente chega ao consumo.
Pequenas economias podem comprometer a recompra
Mudanças aparentemente vantajosas podem produzir efeitos difíceis de identificar.
A substituição de um ingrediente pode reduzir alguns centavos por unidade e gerar economia significativa em grandes volumes. Mas, se houver perda discreta de sabor ou textura, parte dos consumidores pode simplesmente comprar com menor frequência.
Essa erosão raramente aparece de maneira imediata.
Por isso, indicadores financeiros precisam ser analisados junto a testes sensoriais, avaliações de preferência, reclamações e dados de recompra.
Satisfação importa tanto quanto impacto inicial
O desenvolvimento de alimentos costuma valorizar características capazes de causar boa primeira impressão.
Mas intensidade não é necessariamente sinônimo de satisfação.
Um produto pode chamar atenção na primeira mordida e se tornar cansativo ao longo do consumo.
Nesse sentido, a análise sensorial pode considerar a experiência completa: o impacto inicial, o equilíbrio durante a refeição e a disposição do consumidor de comprar novamente.
Porção e embalagem também entram na equação
A forma como um produto é porcionado e embalado interfere diretamente em aproveitamento e desperdício.
Uma embalagem aparentemente mais cara pode reduzir descarte. Outra, mais econômica por unidade, pode gerar maior perda na casa do consumidor.
Por isso, alimento e embalagem precisam ser analisados como parte do mesmo sistema.
O custo real não termina na fábrica nem no caixa do supermercado.
Conveniência também possui valor
Tempo de preparo, necessidade de equipamentos e facilidade de uso influenciam a percepção de acessibilidade.
Um alimento barato pode exigir mais tempo, energia e conhecimento para ser preparado. Já uma solução conveniente demais pode se tornar cara para grande parte do mercado.
Entre esses extremos existe uma oportunidade importante para a indústria: oferecer produtos cotidianos que conciliem praticidade, preço e qualidade.
Escala pode democratizar qualidade
Para Edson Braga, tecnologia e ciência não deveriam beneficiar apenas produtos premium.
Fermentação, melhores matérias-primas, automação, inteligência artificial, engenharia térmica e ciência sensorial também podem ser aplicadas a categorias populares.
Pães, massas, molhos, pizzas e refeições de consumo frequente podem se beneficiar de avanços técnicos sem necessariamente se tornar produtos inacessíveis.
Quando pequenas evoluções chegam a milhões de unidades, seu impacto deixa de ser pequeno.
Eficiência deve preservar aquilo que cria valor
Reduzir desperdícios, estoques excessivos, retrabalho, consumo de energia e paradas continua sendo fundamental.
A diferença está em utilizar esses ganhos para preservar elementos que realmente importam ao consumidor.
Matéria-prima, processo, sabor e consistência não precisam ser sacrificados em nome de economias pontuais.
Eficiência e excelência podem funcionar de maneira complementar.
Compras e finanças também influenciam o produto
No setor alimentício, áreas de compras não negociam apenas preço.
Origem, safra, rendimento, características técnicas e impacto sensorial das matérias-primas também interferem no resultado.
O mesmo vale para decisões financeiras.
Uma redução de custo pode parecer positiva no curto prazo, mas precisa ser avaliada de acordo com seu efeito sobre qualidade, desperdício e comportamento do consumidor.
Em alimentos, decisões de planilha acabam chegando à experiência de consumo.
Uma nova engenharia econômica para os alimentos
Para Edson Braga, a indústria pode avançar de uma lógica concentrada em fabricar pelo menor custo para outra orientada a entregar o melhor resultado economicamente possível.
A diferença está no ponto de partida.
Em vez de apenas definir um limite de custo e adaptar o produto a ele, empresas podem estabelecer qual experiência desejam entregar e utilizar escala, tecnologia e eficiência para torná-la acessível.
Essa visão combina sabor, rendimento, conveniência, aproveitamento, composição e preço.
O verdadeiro valor da comida
Custos, margens e volumes continuarão sendo indicadores essenciais para qualquer indústria.
Mas a análise pode ser ampliada.
A pergunta deixa de ser apenas “quanto custa produzir um quilo?” e passa a incluir “quanto valor conseguimos entregar com cada real investido?”
Essa mudança pode influenciar formulação, embalagem, compras, inovação e estratégia.
No fim, a grande capacidade da indústria está em multiplicar.
O desafio é usar essa escala não apenas para reduzir centavos, mas para tornar alimentos de qualidade cada vez mais acessíveis.
