Início Justiça Psicanálise não pode ser só para burguesia

Psicanálise não pode ser só para burguesia

Mais da metade das unidades de saúde recusa procedimento seguro em casos permitidos por lei. Mulheres de todo o país deslocam-se a SP, onde há hospital de referência — ou vão à Colômbia. Métodos clandestinos matam quatro por dia

Reportagem especial de Anelize Moreira para o Brasil de Fato

Saímos do café. Será que é melhor ir pra outro lugar? Ela se certifica de que ao redor ninguém vai ouvir o que vai ser dito. Olha de novo e me pergunta se a moça sentada à frente pode nos ouvir. Reduz o volume da voz, respira fundo e começamos a conversa.

Apesar disso o aborto ainda encontra obstáculos para ser encarado como uma questão de saúde pública, mesmo nas três condições permitidas pelo direito: em casos de estupro, quando há risco de vida à mulher ou anencefalia do feto.

Em dezembro faz dois anos que o Supremo Tribunal Federal (STF) negou o pedido, quando ela decidiu também realizar o procedimento na Colômbia, onde é permitido em casos de risco à saúde da mulher.

Rebeca, Débora e Fernanda se conheceram pela luta pelo aborto. Fernanda e Rebeca receberam ajuda de Débora para tentar realizar a interrupção pelas vias legais, mas tiveram de sair do país para que isso acontecesse.

Após a negativa da Justiça brasileira, a história de Rebeca se tornou simbólica. Ela virou ativista na luta pela descriminalização e, neste sábado (28), lança a associação “Milhas pela Vida das Mulheres” junto com outras organizações para apoiar mulheres a buscarem seus direitos reprodutivos em outros países.

Ela relata que o aborto na Colômbia aconteceu como se fosse uma internação. “Lá me deram dois misotrol pra abrir o útero e dois ibuprofeno e fiquei aguardando. Depois fui para uma sala fazer ultrassom, eles viram que eu estava de 11 semanas e começamos o procedimento e quando terminou já sai com um contraceptivo subcutâneo. Sai de lá em uma hora e tranquila. Chorei de alívio”, lembra a estudante.

Ela fez buscas na internet e chegou ao hospital Pérola Byington, referência nacional em atendimento público em aborto legal. “Eu saí de lá com medo de ser internada, sai assustada”. Ela conta que foi atendida pela diretora da instituição. Esta teria dito que a gestação não poderia ser interrompida e que, se fosse o caso, ela poderia ser internada para tratar da depressão.

“É interessante pensar que consideramos que o aborto é possível desde que esse motivo esteja de acordo com o que concordamos. O Estado brasileiro concorda que uma mulher realize uma interrupção de gestação decorrente de um estupro. Aceita-se o aborto desde que o motivo seja aceito. O aborto não deve ser feito pela minha convicção, mas pela convicção de cada mulher, ela que deve decidir se isso é possível ou não. Os motivos não deveriam ser do Estado, mas da mulher”, diz o obstetra.

Ele explica que um dos principais obstáculos, para as mulheres, é dar continuidade aos cuidados com a saúde após o procedimento.

“Por exemplo, uma mulher vítima de estupro que é de Peruíbe, que não consegue ser atendida. Ela vem com dinheiro da passagem pro Pérola para interrupção. Depois ela precisa dar prosseguimento ao atendimento psicológico e ela falta porque não tem recursos para voltar.”

As vítimas de estupro não precisam de boletim de ocorrência (BO) para ter o direito ao aborto. Basta a palavra da mulher.

“O aborto na real é algo que já acontece, mas na forma segura é delimitado para alguns. Quem tem poder aquisitivo, sai de lá ilesa, mas a mulher pobre e preta vai procurar um lugar que ela pode pagar e se submetem a lugares que põe em risco a sua própria vida”, explica a psicóloga Priscila Monteiro.

As Unidades Básicas de Saúde, são a porta de entrada para as mulheres que buscam informações sobre aborto legal.

“Por conta de uma informação tardia, muitas mulheres só conseguem saber que têm direito ao serviço quando já passaram do prazo para o procedimento, em casos de violência sexual”, relata a defensora.

Mas parte da sociedade reagiu e a coisa não andou. “A PEC que já foi retirada da agenda de votação mais de uma vez na CCJ. Estão movimentando também uma força contrária, de movimentos de mulheres que recusam a interferência religiosa na política”, conclui a psicóloga.

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