Forrozeiros lembram drilhas, que eram tradição no São João de Caruaru: ‘Animação e irreverência’


Festa começou em 1989 com a gaydrilha e não é realizada desde 2013, após impasse entre empresário e órgãos públicos. Evento é lembrado de forma saudosa pelos caruaruenses. Elifas Júnior comandava a festa nas drilhas, em Caruaru
Elifas Júnior/Arquivo pessoal
O trio tocando por horas o forró que o nordestino é apaixonado, a multidão seguindo o compasso, a avenida Agamenon Magalhães lotada de gente. Foi assim que na década de 90 as drilhas fizeram sucesso em Caruaru, no Agreste de Pernambuco. Elifas Júnior, cantor e compositor conhecido como o Rei das Drilhas, foi um dos grandes responsáveis pela alegria dos forrozeiros.
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A primeira edição ocorreu em 1989 e a pioneira foi a gaydrilha, que reunia homens vestidos de mulheres. Dois anos depois, Elifas começou a comandar a festa que reunia milhares de pessoas. O cantor contou que no começo teve algumas dificuldades, mas a novidade logo conquistou os caruaruenses.
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“Era um carro de som que puxava [a multidão] e no ano seguinte o carro não foi e a gente pegou um Fusca de um amigo, abrimos as portas e descemos pela rua. Brivaldo Lasserre, um dos fundadores da gaydrilha, me disse: ‘Eu vou arrumar um trio e tu desce com a banda’. A gente foi descendo a avenida e a coisa foi se transformando, a galera saía das ruas para ver o que estava acontecendo”, lembrou.
Na cidade do Maior e Melhor São João do Mundo, os trios elétricos, tão conhecidos no carnaval, foram ressignificados. O axé abriu espaço para o forró, arrastando multidões durante o mês de junho. Milhares de pessoas se reuniam durante a tarde nas quadrilhas irreverentes, em um esquenta para a noite de shows no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga.
Elifas explicou que os turistas se divertiam em Caruaru e levaram a ideia da festa para as cidades de origem. “A galera vinha curtir aqui e foi fazendo drilhas lá fora também. Eram mais de quatro horas tocando em cima do trio. Naquela época entrávamos no pátio e tudo. Comecei com a gaydrilha, depois vieram a sapadrilha, piradrilha, machadrilha, estive também na matutodrilha e em drilhas de outras cidades, já perdi a conta de quantas participei”.
Grupo organizado para a sapadrilha, em Caruaru
Olanda Patrícia/Arquivo pessoal
Uma das festas mais irreverentes foi a sapadrilha. Margarete Cordeiro fez parte da organização do evento e relembrou como surgiu a ideia. “Tinha acontecido a gaydrilha no primeiro ano e eu achei aquilo interessante e queria fazer um evento parecido, mas que só tivesse mulheres. Pensei no nome sapadrilha e a ideia surgiu em cima disso: uma brincadeira que só fosse mulher. No ano seguinte, a gente já estava na avenida”.
Com o passar dos anos, o evento cresceu e exigiu uma estrutura maior, além de contar com a presença de personalidades famosas como Humberto Martins, Eduardo Moscovis e Luciano Szafir. “Terminava uma edição, a gente já começava a organizar a outra. Seis meses antes começávamos a ver contratação de trio, camarote móvel, banda e ator global”, explicou Margarete.
Entre tantas pessoas que passaram pela sapadrilha, a professora Karla Alves era presença constante. “Desde o comecinho das drilhas fui participante junto com minhas amigas de trabalho. Combinávamos assim: em um ano quem saía de mulher no outro sairia de homem. Era muito lúdico vivenciar personagens através do vestuário e dos acessórios”.
Drilhas percorriam a Avenida Agamenon Magalhães, em Caruaru
Thomás Alves/TV Asa Branca/Arquivo
O radialista Ricardo Lima também recordou o clima das drilhas: “Era como um carnaval fora de época, uma micareta, só que no ritmo do forró. Tinha muita animação, irreverência e descontração, foram momentos bons nos quais a gente dançava, brincava, fazia muita amizade. É uma comemoração que eu vou levar para o resto da minha vida”.
A última edição das drilhas foi em 2013. No ano seguinte elas não saíram porque empresários, a Polícia Militar, a prefeitura e o Ministério Público não chegaram a um acordo sobre a segurança e o local de realização. O impasse surgiu após as últimas edições registrarem casos de violência e também devido à indefinição sobre a mudança de local para realização do evento.
Para quem vivenciou o período das drilhas, seja em cima do trio, dentro ou fora das cordas há um sentimento em comum: a saudade da festa que há sete anos não é realizada. E este ano, sem o tradicional São João da Capital do Forró, ficam as lembranças e o desejo de que as drilhas um dia possam voltar com segurança e muita animação para os forrozeiros.
*Sob supervisão de Joalline Nascimento