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A escolha da Flip. E o olhar de Elizabeth Bishop sobre o Brasil – Nexo Jornal

A organização da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, anunciou que a autora homenageada na edição de 2020 do evento será a poeta americana Elizabeth Bishop

, marcando a primeira vez em que uma estrangeira é escolhida.

Bishop tem uma relação próxima com o Brasil, onde morou por quase duas décadas a partir de 1951.

Entre escritores brasileiros

e nas redes sociais, a escolha gerou polêmica tanto pela nacionalidade de Bishop quanto pela opinião da poeta sobre o golpe militar de 1964, que derrubou o então presidente João Goulart e instaurou uma ditadura que se estendeu até 1985.

Quem foi a autora

Elizabeth Bishop nasceu em 1911 na cidade de Worcester, no estado americano de Massachusetts.

Sua carreira como escritora começou na década de 1930, com a escrita de seus primeiros poemas. Em 1946, veio a primeira publicação: a coletânea de poesias North & South (Norte e Sul, em tradução livre). Dez anos depois, acrescido de uma nova série de textos, o livro foi o vencedor do prêmio Pulitzer de poesia.

Ao todo, Bishop lançou sete coletâneas de poemas em vida e teve outros quatro volumes publicados postumamente. A autora morreu em 1979, aos 68 anos, por um aneurisma cerebral causado pelos anos de alcoolismo.

Na visão do professor de literatura inglesa da Universidade da Virgínia Thomas J. Travisano, os poemas de Bishop eram imaginativos, inteligentes e sarcásticos. Travisano publicou em 1989 o livro Elizabeth Bishop: her artistic development

(Elizabeth Bishop: seu desenvolvimento artístico, em livre tradução). Segundo o pesquisador, a originalidade e valor perene de suas criações não recebem o crédito que a autora merece.

A relação com o Brasil

Elizabeth Bishop desembarcou no porto de Santos, em São Paulo, em 1951. Sua intenção era passar duas semanas no Brasil.

A estadia curta acabou se tornando uma passagem de quase duas décadas. A mudança de planos ocorreu quando Bishop conheceu a arquiteta e urbanista Lota de Macedo Soares. As duas se apaixonaram e tiveram um relacionamento no Rio de Janeiro que durou até 1965.

A relação foi retratada no filme Flores raras, de 2013. Bishop foi interpretada pela australiana Miranda Otto (O senhor dos anéis) e Soares foi vivida pela brasileira Glória Pires (Se eu fosse você).

Após o fim do relacionamento, Bishop voltou a morar nos EUA. Mas retornou ao Brasil em 1969, quando passou um ano em Ouro Preto, no estado de Minas Gerais. Diversas cartas assinadas por Bishop foram publicadas postumamente, e, em muitas delas, a autora tecia suas impressões sobre o Brasil

.

O apoio ao golpe de 1964

O capítulo mais controverso da passagem de Bishop pelo Brasil envolveu o apoio da poeta ao golpe de 1964

, que colocou o país nas mãos de uma ditadura militar que se estendeu até 1985.

Em uma carta ao poeta americano Robert Lowell, Bishop escreveu, três dias depois do golpe de 64, que ele foi uma revolução rápida e bonita. Em outra correspondência com Lowell, a escritora afirmou que a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte Congresso, etc., tinha de ser feita, por mais sinistro que pareça. Segundo ela, caso isso não tivesse acontecido, a queda de João Goulart teria ocorrido por meio de uma deposição, e não uma revolução.

Nas cartas a Lowell, Bishop tecia críticas à esquerda brasileira da época. Para ela, os comunistas do país eram apenas jovens mimados de classe média alta.

Os rapazes brasileiros são muito diferentes dos americanos, sem dúvida amantes dos 14 anos em diante, mais ou menos. Eles sabem tudo de lamour, mas não têm a menor ideia de como fazer a cama. Ou limpar os sapatos, ou de como ganhar dinheiro ou quanto custa viver ou como é a vida real da sua empregada. De fato, eles nem veem a classe pobre como gente, e ainda acham que são comunistas, escreveu.

Em outra correspondência, Bishop exaltou as passeatas anticomunistas que ocorreram no país nos dias seguintes ao golpe. Foi de fato impressionante, disse a autora.

Um histórico dos homenageados da Flip

A Flip começou em 2003 e, até agora, escolheu um autor brasileiro para ser o homenageado do ano. Foram eles:

  • Vinicius de Moraes (2003)

  • João Guimarães Rosa (2004)

  • Clarice Lispector (2005)

  • Jorge Amado (2006)

  • Nelson Rodrigues (2007)

  • Machado de Assis (2008)

  • Manuel Bandeira (2009)

  • Gilberto Freyre (2010)

  • Oswald de Andrade (2011)

  • Carlos Drummond de Andrade (2012)

  • Graciliano Ramos (2013)

  • Millôr Fernandes (2014)

  • Mário de Andrade (2015)

  • Ana Cristina Cesar (2016)

  • Lima Barreto (2017)

  • Hilda Hilst (2018)

  • Euclides da Cunha (2019)

Dos 17 homenageados da Flip até 2019, apenas três eram mulheres, todas elas brancas. Entre 2014 e 2019, todos os autores homenageados foram publicados pela editora Companhia das Letras.

Como a escolha foi recebida

O fato de Bishop ser estrangeira e ter apoiado o golpe de 1964 gerou discussões nas redes sociais

, em especial porque a escolha da poeta acontece quando defesas ao período de repressão fazem parte do discurso

de membros do governo.

Fernanda Diamant, curadora da Flip, disse ao Nexo que uma das razões da escolha da poeta foi justamente a relação estreita e conflituosa da americana com o Brasil. Ela viveu aqui por muitos anos, traduziu e divulgou a produção literária brasileira no exterior, escreveu um livro de poemas sobre o Brasil e produziu uma imensa correspondência (de foro íntimo em sua origem, obviamente) em que dá suas impressões sobre o país, muitas vezes críticas, e de onde vem a polêmica que está gerando esse debate e também ataques gratuitos e fake news nas redes sociais.

Segundo Diamant, a organização da Flip já esperava críticas, tendo em vista que o homenageado de 2019, Euclides da Cunha, também foi criticado pelo racismo

em suas obras. Quero fazer uma homenagem que seja capaz de abordar a obra e a vida de Elizabeth Bishop de forma crítica, sem evitar suas complexidades e possíveis equívocos. Sugiro que as pessoas leiam a obra dessa poeta imensa, disse.

Duas visões sobre a escolha de Elizabeth Bishop

Para entender melhor a recepção da escolha de Elizabeth Bishop para ser homenageada na Flip 2020, o Nexo conversou com dois especialistas.

  • Schneider Carpeggiani, crítico literário e editor do Suplemento Pernambuco

  • Antonio Prata,escritor e cronista da Folha de S.Paulo

Como você avalia a escolha de Elizabeth Bishop para ser homenageada na Flip neste momento?

Schneider Carpeggani

Muito se fala, em termos de defesa da escolha, de que, sendo norte-americana, ela teria um olhar excêntrico, sui generis, sobre o Brasil. Mas Bishop não era uma brasilianista. Ela namorou uma brasileira e, como viveu no Brasil, tinha sua opinião a respeito do país. Essa opinião não era necessariamente singular. O frequente olhar de pavor sobre o Brasil e os brasileiros não era muito distante daquele que tem a elite. Entenda: ter morado no Brasil e ter opiniões sobre o Brasil não faz dela uma especialista sobre o país. Sua simpatia pelo golpe de 64, influenciada pela relação com Lota de Macedo Soares, é flagrante de uma elite que acha divertido o mundo porque o observa da segurança de uma janela a frase de que a revolução, para usar sua definição do que foi o golpe, foi rápida e bonita é primorosa, poderia ter saído de uma vilã milionária das novelas de Gilberto Braga.

A poesia de Bishop, apesar de consagrada, não tem a temperatura de um país em convulsão, e muito menos de um país situado num continente em convulsão. A menos que se queira dizer com a escolha de Bishop: queremos Bishop justamente por essa falta de temperatura. É difícil se posicionar em tempos como os atuais.

Este é um momento em que seria interessante pensar nossas relações com os países vizinhos, nossas histórias estão colidindo. Há quem pense também que a escolha de um homenageado de um evento literário seja algo menor, que não deveria levantar tanto debate. Pelo contrário: o que está em jogo aí é uma relação de poder. A começar pela escolha do idioma. Se a nossa literatura, nosso idioma, não forem tratados como algo sério, iremos pelo ralo já, já.

Acho complicado também o xingamento de nacionalista para quem reclama que há outros autores brasileiros que merecem atenção da Flip neste momento. É justo. Estamos no Brasil. Duvido que a maior festa literária dos Estados Unidos agora, num momento de tensão como vivem os norte-americanos, vá homenagear um latino-americano. Ainda que ele tenha namorado um norte-americano.

A questão menor nessa polêmica da Flip talvez seja justamente o tamanho da obra poética de Elizabeth Bishop. A escolha de Bishop neste momento faz mais mal à sua grande poesia do que bem.

Antonio Prata

Um olhar estrangeiro sempre tem o poder de jogar luz sobre o que é conhecido. A meta de todo escritor, aliás, é conseguir manter um olhar estrangeiro sobre o que o circunda. O olhar que Elizabeth Bishop lançou sobre o Brasil, nas duas décadas em que viveu aqui, ajuda a nos entendermos melhor. Seu estranhamento com a miséria cotidiana, numa noite carioca, em Ida à padaria; sua análise sobre as relações sociais, nas cartas aos amigos americanos; sua singela e cômica observação sobre a sem-vergonhice do caju: uma fruta com o caroço pra fora.

Soube agora que ela comemorou o golpe militar de 1964. Que pena. Mas que grande oportunidade de se fazer uma mesa na Flip sobre as relações complexas entre a arte e o artista. É possível separar um do outro? Em que medida? É melhor tentar? Não tentar? Mais uma das mil discussões que surgem em torno desta grande poeta que foi gay, alcoólatra, laureada, insegura, encantada, depressiva e também a favor do golpe. A vida é complexa. Por isso existe a literatura.

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