Google desmata 250 mil árvores na Finlândia para centro de dados, gerando controvérsia
A área, que em tempos foi uma vila mineira, é conhecida pela presença de minérios raros (ALESSANDRO RAMPAZZO / AFP)
A Finlândia calcula que aproximadamente 250 mil árvores foram cortadas em 330 hectares de floresta nas proximidades de Muhos, no norte do país, devido a intervenções do Google.
Conforme reportado pelo The Guardian, a gigante tecnológica desmatou ilegalmente toda a região para a construção de um novo centro de dados, removendo até a camada superficial do solo.
Atualmente, a Finlândia está se destacando na construção de centros de dados, com 145 empreendimentos em diferentes etapas de planejamento. A combinação de uma situação geopolítica e geológica estável, além do clima frio, a torna especialmente atraente para empresas buscando economia de energia.
Além disso, o jornal britânico informou que, no início deste mês, a Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão (LVV) ordenou ao Google a suspensão imediata das obras em Muhos e em Otanmäki, a cerca de 100 km a sudeste, pois a empresa não havia realizado as avaliações de impacto ambiental necessárias antes do desmatamento.
Esse acontecimento provocou uma onda de indignação e um debate nacional sobre o papel da Finlândia na corrida global por centros de dados e no avanço da inteligência artificial.
Na semana passada, Antti Järvinen, diretor do Google na Finlândia, pediu desculpas pelo desmatamento, mas alegou que a empresa agiu “com base no melhor entendimento que tínhamos da legislação na época”.
O projeto de infraestrutura de IA do Google, que envolve um investimento de € 13 bilhões, inclui as áreas de Muhos e Otanmäki, e já recebeu críticas de Donald Trump, que preferiria que os centros fossem localizados nos Estados Unidos.
O governo finlandês, que vem promovendo cortes de gastos, incentivou a atração de investimentos. No mês passado, ao anunciar os planos do Google, o primeiro-ministro Petteri Orpo destacou que atrair investimentos é uma “prioridade máxima” e que “o valor da economia de dados vai muito além do investimento direto”. Orpo acredita que o acordo com o Google trará benefícios duradouros.
Além das 250 mil árvores cortadas em Muhos, estimativas indicam que mais 150 mil árvores foram derrubadas em Otanmäki. Como o desmatamento foi realizado de forma ilegal, a madeira não pode ser comercializada.
Esse episódio também levantou questões sobre o uso das fontes de energia renováveis da Finlândia para abastecer corporações internacionais.
Uma petição que já conta com mais de 93 mil assinaturas pede maior regulamentação sobre centros de dados e a criação de uma taxa para compensar as comunidades locais pelos danos ambientais.
Hanna Halmeenpää, presidente do conselho da SLL, manifestou sua incredulidade ao saber da violação da lei por parte do Google. “A princípio, não consegui acreditar”, declarou ao The Guardian. “Nunca ouvi falar de nenhuma empresa que tenha feito algo assim na Finlândia. Eles compraram uma vasta área de terra e simplesmente começaram a desmatá-la, sem mais nem menos. É pura arrogância e inacreditável.”
Halmeenpää também comentou que a velocidade com que os eventos ocorreram deixou o país em estado de choque. “Muitas pessoas estão assistindo ao noticiário e se perguntando: ‘O que está acontecendo agora? O que podemos fazer a respeito? E precisamos mesmo aceitar todos esses projetos de centros de dados na Finlândia?'”
“Para a Finlândia, não há benefícios”
Jussi Kangasharju, chefe do departamento de ciência da computação da Universidade de Helsinque, afirmou que, embora os centros de dados gerem alguns empregos locais, os benefícios em uma escala nacional são insignificantes. “Na verdade, para a Finlândia, não há benefícios”, observou. “São empresas internacionais que atendem clientes internacionais, e a Finlândia arrecada muito pouco imposto corporativo. Em última análise, os centros de dados trazem pouco benefício para a sociedade, exceto para o operador.”
Enquanto a legislação está em processo de atualização, há uma corrida para iniciar projetos rapidamente.
Alguns defendem a criação de um órgão centralizado para coordenar os projetos de centros de dados, ao invés de deixar decisões importantes para os municípios, que podem priorizar necessidades locais.
Impacto na fauna e flora
Em Otanmäki, os moradores sentem intensamente o impacto na natureza e na vida cotidiana. Anni Ranta, de 53 anos, relatou que lobos começaram a aparecer na aldeia após o corte das árvores. A família de Ranta vive na região há gerações, e o ambiente tranquilo da floresta foi substituído pelo barulho das obras do Google.
“Tivemos lobos entrando na aldeia porque todos os animais selvagens fugiram da floresta. O que me preocupa em relação aos centros de dados também é o barulho, pois a área é rochosa. Mesmo quando estamos aqui conversando, parece um tambor”, acrescentou.
Devido à sua forte oposição ao projeto, Ranta considera se mudar. Ela teme que a presença do centro de dados transforme a aldeia em um alvo para a Rússia, dado que a Finlândia compartilha uma extensa fronteira com o país.
“Não os quero aqui”, afirmou sobre o Google. “Não quero que eles estejam na Finlândia. Não gosto da ideia de inteligência artificial e da maneira como o mundo está mudando. Está tudo acontecendo rápido demais, cedo demais.”
Pentti Korhonen, pai de Anni, um guia de trilhas aposentado, comentou que desde o desmatamento, a água do riacho local ficou marrom. “Não há necessidade alguma de centros de dados na Finlândia. Nenhuma mesmo”, concluiu.
Vesa Hyyryläinen, presidente do distrito local da SLL, destacou que pica-paus-de-três-dedos que nidificavam na floresta foram expulsos. “Todos nós, ambientalistas, estamos muito preocupados com a situação política e com a política finlandesa. Pergunto-me por que temos que sacrificar tanto de nossa natureza. Eles entregam tudo com muita facilidade.”
Veli-Matti Uski, diretor-geral do Ministério do Meio Ambiente, afirmou que o governo está “monitorando o desenvolvimento geral do setor [de centros de dados] e a aplicação de sua legislação, e está preparado para propor alterações conforme necessário”.
O Google declarou que está comprometido em proteger a qualidade da água em Muhos e planeja plantar árvores em 130 hectares da área. Ambientalistas, no entanto, consideram que essa medida é insuficiente frente aos danos causados pelo desmatamento.
Um porta-voz da empresa disse: “Operamos na Finlândia há 15 anos e sempre buscamos cumprir ou superar as exigências de zoneamento, ambientais, de saúde e segurança”.






